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A escolha que talvez nunca tenha sido minha

Foto do escritor: Fabiana Aparicio
Fabiana Aparicio
17 de set.
3 min de leitura


Uma das últimas aulas de vedanta falava de como estamos presos a nossa natureza, quer dizer aquilo que está traçado para fazermos, não como destino, mas como o que a nossa natureza foi feita para, a nossa mente. Como uma semente que nasce para ser uma árvore de maçã, ela não terá sucesso em ser uma laranjeira.

Isso me fez refletir...se eu estou amarrada à minha própria natureza, neste sentido e eu resistir a fazer o que vim fazer nessa vida, a vida vai apertando, com obstáculo atrás de obstáculo, até eu finalmente fazer. Fiquei pensando em quantas vezes achei que algo não deu certo por azar, quando talvez fosse só isso: eu tentando fazer o que não era pra ser feito por mim.

Comecei a pensar em situações que eu tenha passado que insisti, insisti até perceber que não ia dar certo ou então, a perceber como vejo com desconfiança de que são realmente necessárias certas práticas mais duras, como a tenda do suor ou o banho de gelo. Sempre me fizeram questionar se eram realmente necessárias ou se era só desconforto gratuito. Percebi, refletindo sobre isso, que questionar a prática pode ser justamente o ego procurando uma saída elegante, disfarçada de dúvida legítima. Não é fácil admitir isso, mas é honesto.

O ponto mais desconfortável de tudo veio quando me perguntei por que eu continuo agindo, já que meu estudo diz que o mérito das minhas ações nunca é meu, que sou só um mensageiro dentro de uma engrenagem maior. A resposta que eu deveria dar é que continuo porque é o dharma, é o que tem que ser feito. Mas apesar de ter o entendimento, percebo que o conhecimento não está estabelecido, porque a resposta que sinto de verdade é outra: ainda enxergo benefício, presente ou futuro, nas coisas que faço. Sei pelo conhecimento que isso é ilusório, mas não sinto assim quando estou buscando motivação pra agir. Essa distância entre o que eu sei e o que eu sinto é o trabalho de verdade, não uma falha no caminho.

E se é assim, se sou uma engrenagem, onde se situa nisso o livre arbítrio, a liberdade. O que é liberdade. Num primeiro momento ser livre parece com poder escolher qualquer coisa, sem amarra nenhuma. Mas talvez seja o contrário: eu tenho uma função dentro dessa engrenagem que Ishvara orquestra, e a liberdade não está em escapar dela pra fazer o que o ego prefere. Está em viver essa função sem o sofrimento de ficar comparando o que fiz com o que "poderia ter sido melhor". Enquanto eu acredito que a escolha e o mérito são meus, essa comparação nunca para. O dia que enxergar que sou instrumento, a base da comparação simplesmente cai, porque nenhuma das duas opções é realmente minha desde o início.

E então, se a escolha não é de fato uma escolha, o que ela é? Cheguei a um entendimento que ainda estou digerindo. Ela é a minha própria natureza se expressando. As minhas vontades e aversões funcionam como setas, indicando um caminho que já é meu, dentro dessa engrenagem maior. Não é escolha no sentido de criar do nada, por conta própria, mas também não é aleatória ou vazia de sentido. É o meu papel específico se revelando através do que eu quero e do que eu rejeito. Eu não invento minha função, eu a reconheço.

Levo esse estudo como parte da minha caminhada em Vedanta com o professor Jonas Masetti, e talvez esse seja o convite desse ensinamento: parar de procurar o que "deveria" ser diferente e começar a reconhecer o que já está se revelando, através

do que eu quero, do que eu evito, e do que insiste em aparecer no meu caminho.

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